top of page

A propósito de tatuagens


Giacomo Grosso, "A mulher nua", 1896. 
Giacomo Grosso, "A mulher nua", 1896.

Para Lucas Lorencini


Tendo chegado a meu conhecimento que um estimado parente faria sua primeira tatuagem aos quinze anos, e não podendo eu admoestá-lo de melhor forma do que lhe escrevendo, foi tal meu desapontamento que no dia mesmo em que o soube comecei a redigir a seguinte carta, não tendo, contudo, tido tempo para a limar o suficiente, porque na tarde do dia seguinte meu primo já saía em direção ao estúdio. Entreguei-lha como pude – de início queria que a tivesse lido em papel, mas só a pôde ler pelo celular –, e, como era de se esperar, não o dissuadiu da empresa. Como eu já trazia, de há muito, o desejo de escrever de semelhante assunto, fiz à carta alguns acréscimos e ajustes e vo-la entrego como segue-se, quase a modo de ensaio.

 

*

 

Não é coisa de nonada marcar o corpo. Diz-nos muito que Deus tenha punido Caim, o primeiro assassino, pondo-lhe no corpo uma marca. A história da tatuagem conta que os povos mais cultos do Ocidente desprezaram essa prática como digna de bárbaros, prisioneiros e escravos.[1] Não por acaso, quando a tatuagem começou a se popularizar no Ocidente, alastrou-se primeiro entre os degenerados, e durante muito tempo foi exclusividade de marginais e dos bois.


Assim como uma casa suja revela um morador decadente, um corpo marcado revela as máculas da alma. O indivíduo se tatua porque deseja exibir na pele os traços que não logrou exibir no caráter. Nada me pode convencer de que a tatuagem não é signo de uma identidade mal definida, tentando se agarrar ao significado estático e morto de um desenho vulgar. Nem tampouco de que não seja expressão de uma autoestima baixa e carência de afeto.


Por moda ou por gosto não pode ser. Afinal, que moda é essa da qual não se pode despir sem se amputar um membro? E que gosto é esse que o passar dos anos não muda? Ainda que o símbolo ou desenho tenha valor eterno, a emoção que deu origem ao desejo de tatuá-lo é efêmera, e certamente passará. Agir por breves emoções é um privilégio dos animais; aos homens foi dada a razão, para que agissem com prudência e ainda previdência.


Tenho por lei segura, e testada, a seguinte: tanto mais tatuagens tem uma pessoa quanto menos goza de saúde mental. Isso é tão verdade e amplamente sabido que os homens e mulheres que preferem parceiros sexuais perigosos e intensos se inclinam naturalmente para as pessoas tatuadas. Não seria porque sabem eles que ali hão de achar o que procuram?


Essa lei, não só a confirma minha experiência pessoal, como a corroboram estudos. “Homens com duas ou mais tatuagens possuem conflitos sexuais e agressivos não resolvidos”, afirma um.[2] Diz ainda: “Indivíduos com múltiplas tatuagens apresentam maiores indicadores de desajuste pessoal do que indivíduos sem tatuagem ou com apenas uma”.[3] E: “A presença de múltiplas tatuagens que diferem em motivação, que não possuem simetria e que não têm conexão aparente entre si é sempre diagnóstica de uma psiconeurose grave”.[4]


Noutro estudo, psicólogos nos prodigalizam conclusões negativas sobre o tatuar-se, relacionando-o com drogas, criminalidade, problemas mentais e tudo quanto há de ruim no mundo.

 

Pessoas tatuadas relataram sentir-se significativamente pior em questões de saúde mental em uma amostra nacionalmente representativa de alemães (Stirn, 2006). Isso indica que fazer tatuagens pode estar associado a comorbidades de saúde mental.[5]
[...]
Outros pesquisadores propõem que a tatuagem pode ser uma prática protetiva ou mitigadora para a ideação e tentativas de suicídio em adolescentes e jovens adultos (Solis-Bravo et al., 2019; Stirn, 2008).[6]

 

Diz ainda um psiquiatra infantil:

 

Ao marcar seus corpos de forma indelével, os adolescentes podem tentar recuperar seu senso de orientação dentro de um ambiente percebido como hostil, estranho ou sufocante, ou então afirmar posse sobre seus corpos em transformação, que se tornam cada vez mais irreconhecíveis. Em ambos os casos, o resultado final pode ser uma resolução frente a imposições indesejadas – sejam externas, familiares ou sociais, em um caso; ou internas e hormonais, no outro.[7]

 

Muitos outros estudos há sobre isso, e tantos e tão negativos, que a realidade é ainda pior do que eu imaginava.


À luz da percepção natural sobre pessoas tatuadas e desses muitos estudos, que a confirmam, a alegação de que as tatuagens constituem mera preferência estética soa-nos enganosa. Mesmo porque nada é mais belo do que um corpo humano natural. Incrementá-lo com marcas e procedimentos apenas o conspurca, afastando-o do ideal que a natureza lhe imaginou. A perfeição que a natureza tentou alcançar na carne o artista a representa na tela, e esta perfeição é sempre branca e imaculada. Se a tatuagem conferisse mais beleza ao corpo, os pintores de gosto clássico a empregariam em suas pinturas. Mas aborrece o bom gosto tudo o que se afasta de natura.


Giacomo Grosso, "Nu feminino", circa 1910.
Giacomo Grosso, "Nu feminino", circa 1910.

Um viajante chegado de uma região afastada não poderia deixar de se admirar com a visão de uma pessoa humana com desenhos no corpo, se não for de alguma tribo primitiva, como admiramos com estranhamento alguém que aumentou os lábios, quadradou o rosto e branqueou os dentes, crendo com isso embelezar-se.


Há ainda algo de profano em tatuar o corpo. Este, muito embora perecível, é o veículo do espírito na matéria. Se não é, então, a coisa mais sagrada que existe, certamente é uma delas. O autoflagelo necessário à tatuagem é também uma profanação. Não sei o que pode levar alguém a ferir-se a si mesmo senão sentimentos confusos e tenebrosos. Se a tatuagem não é motivada por tais sentimentos, ela é, na melhor das hipóteses, a expressão mais genuína da mediocridade: a imitação vulgar. “Eu odeio o vulgo profano e o mantenho longe.”


Não escapou ao olhar psicanalítico a analogia perfeita que existe entre o ato de tatuar-se e o coito:

 

O próprio ato de tatuar possui conteúdo tanto heterossexual quanto homossexual. A penetração da pele por uma agulha afiada e a injeção de fluido sob a pele têm conotações relacionadas ao ato sexual. Homens isolados de mulheres por longos períodos de tempo frequentemente tatuam uns aos outros. Isso é comum em prisões e ocorria antigamente entre marinheiros em longas viagens.[8]

 

Quanto às motivações femininas, diz-se o seguinte:

 

Nas mulheres, os motivos para fazer tatuagens são frequentemente exibicionistas. As garotas usam tatuagens para insinuar e excitar, da mesma forma que usam roupas. Elas parecem ter menos necessidade de proclamar seus desejos, esperanças e medos do que os homens. Símbolos freudianos clássicos, representando zonas erógenas, são desenhos escolhidos com frequência.[9]

 

Aí vão bem explicadas a tatuagem de pimenta, que nada mais é do que o pênis, e a de borboleta e de rosa, que são a vagina. O fato de tatuagens insinuarem uma promiscuidade subjacente seja talvez o que explique o seu apelo sexual, tanto quanto a loucura em algumas mulheres sugere que são amantes fogosas.


Nota bem agora, Lucas, a diferença que há entre criar arte e tatuar o corpo, para veres que são coisas mui distintas, e até opostas. No criar arte, matéria inanimada é transformada em expressão, incorporando o sopro de vida do artista. Eleva-se a matéria por ação do espírito. Já no tatuar o corpo, o templo do espírito se macula com matéria morta, e o superior se consagra ao inferior.


Sendo a tatuagem um ritual de sangue e de dor que rebaixa o corpo e portanto o homem, que vantagem tem senão postergar um suicídio? Se é proclamar uma ideia, para isso já existem o papel, a mídia e a voz. Se é lembrar-se dela, gravá-la no corpo seria uma redundância, estando gravada no coração. E, se não estiver no coração, para que dedicar-lhe o corpo? Tatuando-te, apenas tornarás públicos teus conflitos. Nesse sentido, fazem-nos um bom trabalho as tatuagens, distinguindo o lumpemproletariado do homem e da mulher de bem, e os desajustados das pessoas normais.


Por motivo de não marcares o corpo, eu ainda poderia dar-te o fato de que boa parte das pessoas que o fazem se arrepende, e mormente quando o fazem na tua idade.[10] Nada mais natural que isso, visto que a juventude, sendo fase de formação, é marcada pela presença de gostos e valores que o indivíduo há de repudiar mais adiante. Mas, se ter no corpo a marca perene de um sentimento fugaz te não incomoda, nem te incomoda estares a imitar os medíocres e os inferiores, dar-te-ei uma razão talvez melhor, que apelará para o gosto – se o tiveres, como julgo que tens – pelo autoaprimoramento.


Assim como uma cobra troca de pele, e se faz nova, o homem também deve morrer e renascer em vida para se fazer novo. Esse processo envolve abdicar de hábitos, companhias e gostos que lhe eram muito caros para então cultivar hábitos e gostos que se coadunem com novos valores, e encontrar companhias também a eles mais conformes. Durante esse processo, o sujeito se vê amiúde forçado a desfazer-se de amizades, desfrequentar ambientes e mudar a forma como se veste. Trata-se de uma morte e um renascimento simbólicos para uma nova vida.


Sucede que esse abandono do passado, condição de todo salto de amadurecimento, encontra-se estorvado quando algo do passado não pode ser removido. Esse estorvo se deve a um fenômeno chamado dissonância cognitiva, que acontece quando o indivíduo tem duas ideias contraditórias na consciência, precisando se livrar de pelo menos uma delas. Em ti há de dar-se isto, quando, daqui a uns anos, não te identificares mais com a tatuagem que fizeres. Não podendo, porém, arrancá-la, ver-te-ás forçado a procurar meios de a justificar para ti mesmo, aferrando-te desse modo à tua mentalidade de quinze anos. Em outras palavras, é provável que atrases o teu próprio amadurecimento para não fazeres caducar tão cedo a tatuagem, em vez de amadureceres logo e com isso te sentires carregando no braço um símbolo que te não representa mais. É como terminar um namoro e não poder remover da proteção de tela a foto da ex-namorada.


Sendo tu homem de inteligência, dentro de pouco tempo, tão certo como a sucessão dos dias, estarás bastante mudado, mas levando no braço a marca de uma fase imberbe, para te lembrares sempre da tua tolice, quando o natural e saudável é que as nossas tolices fiquem mortas no passado.


Mas me mortifica mais o que essa decisão pressupõe do que o que ela implica. Porque pressupõe que tens convivido com a plebe espiritual da tua geração e que ouves as suas músicas, e nesse convívio acabas achando normal ter o corpo marcado. Embora seja certo que na juventude estamos aprendendo sobre nós, de sorte que temos contato com modos de ser que ao depois rejeitamos, também é certo que uma influência só nos move quando já temos para ela uma propensão. Ninguém se deixa influenciar por aquilo a que em primeiro lugar não sente alguma atração. As influências externas apenas atiçam nossas inclinações naturais.


Se, com tudo isso, ainda tens o desejo de te tatuares, faze-te pelo menos esta pergunta: “Que fim almejo alcançar tatuando-me? O que obterei com isso que sem isso não obteria?” Se fores bastante sincero, hás de encontrar uma resposta que talvez te isente de semelhante despropósito.


Muito mais poderia ser dito a esse respeito, mas sobre tatuagens basta saberes isto: que são uma sujeira, e, ainda que pintem Jesus Cristo, fazem-se indignas da tua pele.


De todo modo, queda-te em que te amo com ou sem sujeira. E, caso não resistas à tentação, não terá sido a primeira nem a última tolice que farás em vida, nem a maior. É força que seja assim, dada nossa condição de ignorância. Nem hás de perder, por semelhante bagatela, a admiração do teu primo, que tens garantida desde que te preserves honesto.

 

Com afetuoso abraço do

teu primo

JMT.

 

[1] “The psychodynamics of tattooing: a review”, Ralph I. Fried, M.D. https://www.ccjm.org/content/ccjom/50/2/239.full.pdf.

[2] “The Relantionship of Tattoos to Personality Disorders”, Richard S. Post. https://doi.org/10.2307/1141832.

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] “A Comparative Study of Mental Health Issues among Tattooed and Non-tattooed Young Adults”, Neerja Pandey, Pratigya Kasera, Chaya Gupta.

[6] Idem.

[7] “On Teenagers and Tattoos”, Andrés Martin, M.D.

[8] “The psychodynamics of tattooing: a review”, Ralph I. Fried, M.D. https://www.ccjm.org/content/ccjom/50/2/239.full.pdf.

[9] Idem.

[10] Richard L. Dukes, “Regret Among Tattooed Adolescents”; “Study: New Statistics Surrounding Tattoo Opinions, Regrets, and Removal”, https://www.advdermatology.com/blog/americans-tattoo-regrets-2023-data-study/.


Comentários


Inscreva-se para receber novas postagens

Obrigado!

bottom of page