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Em defesa de Cypher

Atualizado: 9 de mar. de 2023


Anteontem, quando compartilhei o texto sobre o que é a Matrix em um grupo de amigos, um deles trouxe à tona uma ideia que havia pouco começara a germinar dentro de mim: “A verdadeira red pill”, disse ele, “foi lançada por esse careca”, referindo-se a Cypher, cuja foto foi usada como capa do texto.


De fato, ele é um dos personagens mais detestáveis da Trilogia, a começar por seu amor obsessivo por Trinity, cuja rejeição não o afastava, mas fazia recrescer dentro dele um ódio inexplicável. Interessante notar que, quando um homem se apaixona por uma mulher, ele começa a acreditar que ela lhe pertence e que seu amor por ela lhe dá o direito de possuí-la exclusivamente. Esse pensamento irracional foge à percepção do próprio homem, que se deixa levar por essa ilusão territorialista sem questioná-la. Quão mais baixo é o homem, mais verdadeira essa ilusão lhe parece, e, como não poderia deixar de ser, Cypher é o mais materialista dos personagens “libertos”.


A maneira como ele trai seus companheiros é abjeta. Ele prefere cometer um ato abominoso a permanecer no estado de privação no qual se encontra. A perda de qualquer esperança de obter Trinity, com a chegada de Neo, é o estopim para ele não só abandonar o navio, como querer afundá-lo com todo mundo dentro. Faz então uma negociação com as máquinas e concorda em acabar com a guerra entregando a cabeça de Morpheus.


De início, a luta deste parece justa, e não somente isso: parece-nos a luta mais justa possível: a luta da realidade contra a ilusão, do verdadeiro contra o falso. Que maior nobreza há do que pelejar contra a mentira e a falsidade? A angústia existencial de Neo, para quem aquela vida quadrada parece muito estranha, só vem a legitimar ainda mais essa luta ou busca pela realidade. Em seu íntimo, ele sente que algo está errado, e o convite de Morpheus para tomar a pílula da verdade se lhe assoma irrecusável.


Mas ao longo do filme a peleja se mostra grande demais para um resultado pífio: viver em paz nos subterrâneos da terra. Morpheus quer libertar todos de suas vidas normais e confortáveis para viverem como animais acuados em constante risco de serem dilacerados por robôs de extermínio. O que surge no início como a causa mais nobre se mostra depois uma obsessão pessoal, e o idealismo de Morpheus começa a ficar perigoso.


Diz ele que aqueles que estão na Matrix irão lutar para manter o status quo. Mas é claro, quem irá querer lutar para ir morar no esgoto? Se o povo da Matrix soubesse a verdade, talvez lutaria com mais furor ainda para manter as máquinas no controle. Daí que Cypher foi o personagem humano mais inteligente da Trilogia, ainda que o tenha sido pelos motivos errados.


Como sabemos, o que o levou a agir como agiu foi o ódio e o ressentimento. Mas, pensando bem, ele fez a melhor escolha. Preferiu viver bem e com conforto a viver mal e precariamente. Qual a diferença entre viver na realidade real e viver numa simulação de computador, se o desenvolvimento mental e espiritual do homem pode se realizar do mesmo jeito? Claro que, se esse desenvolvimento fosse suspendido pelo sistema das máquinas, valeria mais a pena morar no esgoto. Mas não parecia ser esse o caso. A consciência, afinal de contas, se mantinha a mesma nos dois ambientes, a tal ponto que Neo e outros prodígios conseguiam até modelar o tecido da realidade. Além disso, a verdadeira liberdade não é a ausência de muros, mas a liberdade interior.


Morpheus caiu na pegadinha mais antiga do mundo: a existência do mundo externo, daí acreditar que a liberdade dependia das condições externas. No fundo, ele continuou sendo um escravo – com um senhor diferente. Para ele, era melhor viver como um escravo sendo livre do que viver livre sendo um escravo – sendo o seu critério não a liberdade mental, mas a do corpo orgânico.


E Cypher, na sua ignorância e pelos motivos errados, tomou a decisão mais acertada: ir viver bem, ainda que na ilusão. Afinal, o que não é uma ilusão?



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