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Dos médicos

Jean-Léon Gérôme, "Piscina em um Harém", circa 1876.

 

A figura do médico sempre gozou de um prestígio – merecido pelo valor da arte – mas já indevido pelo desvio do cultor. Lá quando na Grécia surgiu, ensinada a Esculápio pelo mitológico Quíron, a arte médica era um sacerdócio passado de pai para filho e exercido sem o fim de lucrar. Hoje é uma vaidade que mata uns e outros aleija.


Não reside o mal no lucro, nem na concorrência, nem no capitalismo – que são tais coisas os arautos da prosperidade e da abundância. Sem o lucro, haveria muito menos médicos, se algum. E precisamos muitos, visto como a população é rápida no adoecer e lenta no precaver. É a perspectiva do lucro que nos dá médicos, professores e hospitais; e a promessa de que disso tudo se poderia gozar gratuitamente, por poder de uma disposição constitucional, deixemo-la para estar na boca dos maus e ser crida pelos inocentes. Antes o mal reside na perda de vista desta verdade: que a Medicina é um sacerdócio e como tal se deve exercer. Já não digo renunciar ao lucro, mas nem tampouco ao bem do paciente: e sim trazer sempre aquele por baixo deste, na hierarquia médica dos valores.


Tive o privilégio de cursar Medicina por um ano e conheço as motivações mais costumeiras dos seus alunos. São elas três: status, dinheiro e mulheres. Não me excluo dessa assembleia, quanto mais que tenho horror a hospitais e a doentes. Nunca pensara em termos de gosto e aptidão: via somente que era a profissão com os maiores ganhos e o maior prestígio.  Quando ia, porém, para a faculdade, em vez de tornar lendo fisiologia e bioquímica, tornava lendo Hoppe, tornava lendo Quine, tornava lendo Bilac. Mas não foi por isso que não terminei a faculdade: sucede que não tiveram meus pais condições de manter-me e tive de sair. Depois de tantos anos dedicados a estudos que cada vez menos me interessavam, decidi mudar de curso, e fiz Direito.


A maioria dos que iniciam a faculdade de medicina a termina, porque estão acostumados a entrar horas estudando. Mas não confundais vós leitores capacidade de estudo com acuidade de entendimento; por melhor dizer, não confundais memória com inteligência, e nem tomeis conhecimento por sabedoria. Os alunos de medicina são tão estúpidos quanto os outros, distinguindo-se tão somente pela bem acabada vaidade. Aliás, a capacidade de sentar, baixar a cabeça e estudar o que é mandado, da forma como é mandado, e tirar boas notas, sem questionar e sem levar adiante o pensamento em novas descobertas e raciocínios, mas engolindo tudo o que vem, é um atributo de espíritos conformes, para não dizer escravos, pelo que se tem corretamente dito que o diploma não é senão uma credencial de conformidade. O acadêmico moderno é um papagaio que adestra outros na mesma arenga. Portanto, não é o diploma, por modo algum, sinal de grandeza. “Eu não tenho nenhuma espécie de superstição pelos títulos escolares ou universitários; eles dão algumas vezes algum saber profissional, muito restrito e ronceiro, e nunca uma verdadeira cultura.”[1]


Mas tornemos à comparação entre o aluno de medicina e os outros. O gosto pela orgia, a inclinação pelo fútil e o ódio à alta cultura, lendo só os livros estritamente necessários para sagrar-se na prova, e ainda assim somente trechos imprimidos, nisto todos se igualam. Na medicina, contudo, é pior o caso, pela gravidade do ofício. Raro é encontrar aluno que de fato encarne a tradição de Asclépio. Talvez haja um ou dois, numa sala com cem. Um desses raros tive o prazer de conhecer e amigar, e era o indivíduo tão fiel ao primo non nocere que, tão logo viu não poderia exercer a arte sem ultrajar o princípio, abandonou-a.


O médico, o advogado e o professor são os mais prestigiados cultores de uma arte: porque devem, no exercê-la, curar do bem comum e do alheio antes que do próprio. Por isso são também as profissões onde mais dano causa o seu desvio: o médico fere, o advogado mente, o professor imbeciliza. Mas, ainda dessas três, é a profissão médica a maior e mais sublime, porque cuida do bem mais precioso do homem, que é a saúde. Sem saúde, nem a justiça importa nem o intelecto medra. A saúde do corpo, portanto, é a condição de todas as demais saúdes. E assim também a degeneração da medicina, a mais condenável.


Muito se tem ouvido de incompetência e incúria médica. O médico, que passou a faculdade em festas e intrigas, não faz mais que ler um exame e prescrever um medicamento que, enquanto suprime um sintoma, produz outro. A sua verdadeira paixão, que é entoar, embriagado, hinos satíricos nos festivais estudantis, teve de substituir-se pelo enfado de estudar, examinar, investigar, conjeturar, testar, retestar e decidir. Mas fazer tudo isso é para os ortodoxos, em se tendo máquinas para examinar e laboratórios para medicar. As máquinas fazem a anamnese; os laboratórios produzem os medicamentos; os protocolos decidem a ação. De modo que o bem do paciente já foi definido ex ante pelos Conselhos e pela Big Pharma.


Eis o motivo pelo qual o meu amigo decidiu abandonar o sacerdócio: é que, se arriscar procedimento diverso do contido nos manuais, por entender melhor para o paciente, e este lhe responder mal e morrer, não terá fulcro jurídico no qual içar defesa, porquanto agiu contrariamente ao procedimento regular. Sem a proteção legal para exercer a medicina conforme entende mais benéfico para o paciente, e sabendo que, se a praticar segundo mandam os Conselhos e manuais, poderá ser causa de muitos danos, optou por abster-se. Uns o chamaram covarde; outros lhe viram excesso de escrúpulo; outros ainda julgaram antieconômica a atitude. Mas foi a única maneira que encontrou de manter limpa a consciência. Vede bem, não quero dizer que os Conselhos e manuais estão errados, senão que o caso particular sempre contém mais elementos do que os antevistos. A medicina, afinal, é tão arte quanto ciência.


Vez por outra tenho ouvido queixas do seguinte feitio: um falou que, estando com gota, foi diagnosticado com dedo quebrado; outro, que lhe prescreveram medicamento tão venenoso que quase morreu. São assombrosamente numerosos, com efeito, os casos de iatrogenia. Um jaleco branco, afinal, é para se confiar ou temer? Dir-se-ia temer, quanto mais agora que tem servido aos governos, apoiando o aprisionamento dos povos sob pretexto de segurança e inoculando-lhes veneno sob pretexto de prevenção. Aí se tem claro a quem os médicos dedicam a sua arte.


Minha experiência não tem sido diferente: gasta-se muito, sabe-se pouco, resolve-se nada. A doença vem e vai de livre talante, como convidado malquisto. O médico, sentado na presidente, lê os exames, indica remédios e despede o paciente, sem mencionar os fatores primaciais que estão na origem de todas as doenças: a dieta, os hábitos, o psiquismo. Nada disso lhe ocorre, e se ocorresse não falaria, porque está ali não para curar o doente, senão para atender o cliente: de modo que se faz assim um mecânico chique.


O médico não menciona as fontes primaciais das doenças, aquelas que referi, porque, de um lado, a vida pessoal do paciente lhe não diz respeito, e, para não ser um intrometido, se cala; de outro, não possui base empírico-racional para dizer que a hemorroida de Tião se deve a não perdoar o pai, o cálculo de José, a um problema com o filho, e o câncer de Maria, a uma raiva voraz. E mesmo se semelhante base tivesse, e pudesse com segurança ligar a cada moléstia uma emoção, nada poderia fazer, senão aconselhar e no máximo proceder a um tratamento que atuaria no efeito e não na causa. Mas, acima de tudo, ele não menciona aqueles fatores porque os não conhece.


Tinha que ser examinado pelo Henrique Roxo. Há quatro anos, nós nos conhecemos. É bem curioso esse Roxo. Ele me parece inteligente, estudioso, honesto; mas não sei por que não simpatizo com ele. Ele me parece desses médicos brasileiros imbuídos de um ar de certeza de sua arte, desdenhando inteiramente toda outra atividade intelectual que não a sua e pouco capaz de examinar o fato por si. Acho-o muito livresco e pouco interessado em descobrir, em levantar um pouco o véu do mistério – que mistério! – que há na especialidade que professa. Lê os livros da Europa, dos Estados Unidos, talvez; mas não lê a natureza. Não tenho por ele antipatia; mas nada me atrai a ele.[2]

É verdade que não cabe ao médico doutrinar, moralizar e educar as pessoas quanto a seus hábitos e estilo de vida. “A medicina preventiva é a corrupção da medicina pela moralidade. [...] O verdadeiro objetivo da medicina não é tornar o homem virtuoso; é o de protegê-lo e salvá-lo das consequências de seus vícios.”[3] Contudo, mandar embora o paciente sem lhe esclarecer as verdadeiras causas do seu mal é mantê-lo doente, e fazê-lo sair de uma doença para cair em outra. “Consequentemente, o paciente consegue apenas uma cura temporária. Continuando a existir os conflitos íntimos, logo ele torna a ficar doente.”[4] Mas também reconheço que a medicina ocidental não alcançou ainda saber que as doenças do corpo são manifestações dos males da alma. Desse modo eles “se limitam a eliminar apenas as ‘condições oportunas’ da doença, através de tratamentos e medicamentos, deixando de lado a solução dos conflitos íntimos do paciente, os quais constituem a verdadeira causa da doença”.[5]


Na adolescência descobri que o osso do meu joelho estava levemente desgastado, condição a que se chama condromalácia patelar. O médico que me atendeu falou que eu não deveria mais treinar perna, nem subir escadas. “Não posso subir escadas nunca mais?” Ele se irritou com o questionamento, e respondeu-me que deveria pelo menos evitá-las. O absurdo da prescrição era evidente: por evitar uma dor, queria que eu me fizesse logo de aleijado. Não lhe dei ouvidos: apenas reduzi as atividades que forçavam o joelho e continuei fortalecendo a musculatura da perna. Logo o problema sumiu. Noutra ocasião, acometeu-me uma doença de pele e fui a uma médica do SUS. Ela me passou isso e aquilo e nada resolveu. Tornei a ela algumas vezes, que já estava ficando impaciente. Desisti e fui a uma dermatologista particular; o mesmo sucedeu. Tanto a médica do SUS quanto a particular têm um repertório limitado: fazem as mesmas perguntas, sugerem as mesmas soluções, nunca vão além do físico e do aparente. A insistência da doença não as faz pensar que, na verdade, elas nada conhecem da sua causa. E a sua impaciência em me ver tornar à sala com a mesma enfermidade é um testemunho de que no fundo elas sabem, por intuição, que a causa da doença é o próprio paciente. Desisti de novo e fui buscar a cura interior: a pele restaurou-se. “Doenças não existem; existem somente recuperações.”[6] Também merece menção uma dor na lombar de que por muito tempo sofri e já achava que não teria solução. Trataram-me um especialista em dor, um quiroprata, um ortopedista e alguns fisioterapeutas. Nenhum alongamento, nenhuma prática, nenhuma postura resolvia. O exame radiológico nada apontou. Todos diziam que a minha coluna era saudável. Curou-me o desapego. A origem da dor eram tensões internas, oriundas de preocupações inconscientes. Foi um trabalho mental e espiritual que me curou.


Segundo Lair Ribeiro, na faculdade de medicina nem se ensina toda a verdade nem tudo o que se ensina é verdade. Quanto a não se ensinar toda a verdade, tomai o caso do jejum: o melhor remédio do mundo passa ao largo das terapêuticas. Quanto a não se ensinar sempre a verdade, tomai o do colesterol: o seu alto nível pode ser um indicador antes de boa saúde. Mas os médicos são treinados a medicar e disso não vão além, por carecerem de conhecimento, de capacidade, de moralidade e ainda de vontade. Ora, não carece dessas coisas, e sobretudo de moralidade, alguém que prescreve e executa uma bariátrica? Essa cirurgia se tornou o refúgio da intemperança e do descomedimento. À terapia e ao autocontrole prefere-se a automutilação. Arrancar e lançar no lixo um pedaço das próprias entranhas, como fosse uma doença. E isto pensado, estudado, calculado e receitado – com grande seriedade. Mas como chamar de médico alguém que participa e incrementa a loucura do doente?


Instruído então no conhecimento de que não se deve confiar em médicos, eu que já era cuidoso da minha saúde, redobrei os cuidados. Crer na saúde gratuita é ignorância; crer na capacidade dos médicos, temeridade. Nem é o estado responsável pela saúde de ninguém, nem a medicina garante saúde a alguém: ai daquele que num ou noutro fiar-se.


 

[1] Lima Barreto, Diário do Hospício, p. 31.

[2] Idem, p. 12.

[3] H. L. Mencken, O Livro dos Insultos, p. 28.

[4] Masaharu Taniguchi, A Humanidade é Isenta de Pecado, p. 26.

[5] Idem, p. 26.

[6] Elio D’Anna, A Escola dos Deuses, p. 198.

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