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Do modo correto de obter-se a ultra-alta performance

Atualizado: 14 de mar.


Godfried Maes, "Cabeça de Medusa", 1680.

Quando, anos atrás, assisti pela primeira vez ao filme “Sem Limites”, ao qual reassisti diversas vezes, tendo sido a última há só alguns dias, no qual um mau e preguiçoso escritor descobre uma pílula que o torna um super-homem, chamada NZT-48, fiquei encantado não pelas maravilhas que uma droga pode fazer, que isso, até onde saibamos, não existe como se dá no filme sem drásticas consequências, e sim pelo estilo de vida “sem limites” que um homem bem instruído e bem guiado pode alcançar, angariando amigos, mulheres, fortuna e sucesso em todas as áreas. E fiquei tão encantado, que posso dizer que esse filme foi um dos motivadores do meu desenvolvimento pessoal e da minha busca por semelhante vida. Por semelhante não quero dizer que tenha passado a procurar uma droga que me desse aqueles poderes, embora sei que existam os chamados nootrópicos, substâncias que aumentam o desempenho cerebral; quero antes dizer que tenha passado a me dedicar com maior afinco à busca por uma vida mais abundante.


Ainda que cético da existência de uma tal substância, procurei por uma que tivesse efeitos semelhantes aos do NZT, e descobri que, nessas drogas, quão mais maravilhosos os efeitos, mais desastrosos os colaterais, não havendo na biologia, como não há na economia, almoço grátis. De algum lugar aquela energia precisa sair, e um mal compensatório deve seguir-se necessariamente e na mesma medida do proveito obtido. Drogas como a Ritalina, o Venvanse e o Modafinil, famosas entre estudantes de pré-vestibular de medicina e investidores da bolsa, são benfazejas somente nos casos específicos a que se destinam, não constituindo uma solução sustentável para a questão do alto desempenho. Podem ser ingeridas uma vez ou outra, para um objetivo pontual, mas tomá-las diariamente acarreta a destruição da mente e do corpo. As melhores opções de que dispomos ainda são aquelas oriundas da natureza, como o café, o guaraná e o matcha, se bem que, naturalmente, nenhuma delas pareie com o poder de uma anfetamina, nem sirva para nos dar aquele altíssimo desempenho que buscamos.


Sabendo, porém, que essa altíssima performance é possível, mesmo e sobretudo sem as drogas, graças ao conhecimento que nos legaram os iogues do passado e nos ratificam os do presente, podemos continuar a buscá-la por meios naturais e estar certos de atingi-la. Digo que sei da real possibilidade da ultra-alta performance por causa dos iogues porque eles mestraram o domínio sobre o corpo e a mente, e sei de histórias tão maravilhosas que fazem o nosso objetivo aqui parecer tão simplório quanto o desejo de andar para frente. Há o caso, por exemplo, de um iogue que não apenas tinha liberado todo o potencial de sua mente, como nem mais precisava dormir. Tal maravilha se conquista com uma vida, senão muitas, de intenso trabalho espiritual. E é verdade que, se ele conseguiu, nós também podemos conseguir, se quisermos. Contudo não é o que queremos agora, pois nossa atual condição nos obriga a ser menos ambiciosos; apenas ter foco e energia ao longo do dia chegará para estarmos contentes. De modo que falaremos doravante dos meios eficazes de se obter, não a performance sobre-humana pintada no filme e esposada pelos mestres iogues, mas a mais alta performance que a um homem comum é possível.


Não fiz extensa pesquisa, como me compele meu ofício de escritor, mas à qual me desobriga a natureza recreativa do blogue, todavia posso compartilhar o que tenho aprendido comigo mesmo a fim de ter o desempenho mais alto. Receio que não direi nada de mais, nem nada de novo, mas com certeza contribuirei para alguma decisão na vida do leitor que deseja ser mais feliz e produtivo.


Começo dizendo que a mais alta performance exige que se coma bem, e por bem quero dizer: nenhum açúcar, exceto o das frutas, nenhum produto industrializado, nenhum glúten nem leite e nenhuma droga, exceto chás, cafés e quejandos, em parcimônia. (Pequenos desvios dessa norma não devem ser abominados.) À boa alimentação devem se unir atividades físicas de média para alta intensidade. Deve-se dormir bem e quando possível tomar sol. Tais hábitos agradam ao corpo. Mas é na mente que está o que considero o principal motor da ação: que uma mente fraca e dividida não consegue conduzir bem um corpo, ainda que forte. O que mais nos trava e cansa são crenças limitantes, conflitos internos e preocupações, pois tudo isso divide o foco e rouba energia. Quanto menos preocupações tem um homem, mais inteiro – íntegro – ele é, e portanto menos difusa e mais concentrada é a sua atenção. Um in-divíduo é um ­não dividido, portanto um inteiro, e todo o seu ser se acha sempre apontado em uma só direção. É isso que torna sua energia sumamente otimizada.


A meditação é um dos melhores hábitos que se podem nutrir para alcançar esse estado de ser. Minutos diários de meditação já chegam para se gozarem notáveis efeitos. Mas é preciso também recorrer a outras técnicas de limpeza mental para se obter a mais alta performance, técnicas que eliminem traumas, como a TRG (terapia de reprocessamento generativo), e reprogramem o subconsciente, como a hipnose e a PNL (programação neurolinguística). Sem essa limpeza e reprogramação, continuaremos divididos, carregando conosco, aonde quer que vamos, ideias e sentimentos ligados a eventos do passado e dos quais não precisamos mais. É a eliminação de traumas, de crenças limitantes e de pendências mentais que tem me oferecido o maior ganho em autoconfiança, foco e disposição física e mental. Tamanho é o poder de uma mente organizada, que muitos vícios do corpo, como a glutonaria, o uso de drogas e a insônia, se resolvem tão logo o lixo mental é removido. Muitas vezes um mau hábito, assim como a resistência à aquisição de um hábito bom, tem sua origem em um conflito interno. O excesso de preocupações pode causar a insônia, que causa a preguiça. A ansiedade pode levar à glutonaria, que conduz à indisposição e à feiúra corporal. A baixa autoestima conduz a comportamentos estúpidos e autossabotadores. Em se consertando a mente, portanto, solucionam-se muitos problemas externos. A mente parece ter primazia sobre o corpo, mas o cuidar do corpo também leva a uma limpeza mental.


Aparentemente, é mais fácil mudar a dieta do que eliminar um trauma. Digo que é mais fácil eliminar um trauma do que mudar a dieta. Mas cada um deve começar a mudança a partir do que lhe seja mais cômodo. Em geral é mais fácil começar pelo corpo, modificando a dieta e incluindo na rotina atividades físicas. A quem disser que semelhante vida lembra a de um monge, respondo que a vida moderna é que está degenerada, e essa vida saudável é o natural do ser humano. Um indivíduo que se alimenta bem, se exercita e não se entorpece não é por isso um virtuoso, da mesma forma que um sujeito que não mata e não rouba não é por isso um honesto. Cuidar da mente e do corpo é antes dever de todo homem civilizado.


Tenho acompanhado um programa na internet chamado Podcast Desinformação, com Arthur Petry e Tiago Carvalho. Há alguns dias eles conversaram com um professor de arte marcial chamado Brigadeiro, que esteve presente em um triste debate que se desenrolou entre ele e um tal de Paulo Kogos, e que foi invadido por um homem que gritou muito, cujo grotesco comportamento angariou inclusive grande fama ao episódio. Naquele programa, então, Brigadeiro, comentando do debate de que participara, lamentou que se faça tão indevida separação entre corpo e mente, e estudiosos como Paulo Kogos menosprezem a beleza e o vigor físicos como se fossem coisa de somenos importância. E lembraram os apresentadores do Desinformação que, na Grécia antiga, não era assim: que os helênicos não viam o cuidado do corpo e o da mente como coisas separadas e sim infinitamente ligadas. De modo que a ginástica era considera uma arte a que todo cidadão deveria se dedicar. Segundo Nietzsche, a beleza em Atenas era um bem de tão elevada estimação que a feiúra era considerada quase um contra-argumento. “A feiúra é, muitas vezes”, diz o filósofo em Crepúsculo dos Ídolos, “sinal duma evolução entravada, pelo cruzamento, ou então sinal de uma evolução descendente.” Eu me pergunto: como pode um homem pensar sãmente em um corpo descuidado? E como pode emitir belos e ordenados pensamentos possuindo uma compleição física feia e desordenada? Não me entra na cabeça que um amante da verdade não seja também um amante do corpo, na medida, pelo menos, necessária à sua boa conservação. Não aceito que um cultor das letras e legítimo estudioso seja gordo e flácido. Se um corpo são promove uma mente sã, devo fazer o possível para que meu cérebro trabalhe em seu melhor desempenho. Por conseguinte, se o cidadão comum tem o dever moral de cuidar do corpo, tem-no ainda mais o intelectual.


Para esses dois males há tão só uma salvação: não empregar a alma sem o concurso do corpo nem o corpo sem o concurso da alma, de modo a que possam estar de maneira mútua regularmente equilibrados e sadios. Assim, o matemático, ou o aficionado ardente de qualquer outra matéria, que mantém uma atividade árdua com o seu intelecto, precisa igualmente submeter seu corpo ao exercício praticando ginástica; por outro lado, aquele que é cioso no que toca a modelar o corpo deve, por sua vez, ativar sua alma se devotando às artes liberais e a todos os ramos da filosofia, se um ou outro quiser ser merecedor de ser classificado com justiça como belo e bom.[1]

A ultra-alta performance é assunto para livro, senão para volumes, por modo que temos aqui um raso esboço. Mas não poderíamos encerrar sem referir aquela prática que tem se tornado tão afamada e prestigiosa, e prometido maravilhas: a retenção seminal. Descobri-a antes de se tornar famosa e a pratiquei sem muito sucesso. Tive dela todavia alguns benefícios, porque, ainda que não conseguisse manter a retenção por longo período, o pouco que mantinha era já proveitoso. Sendo o corpo formado de energia, e a sexual sendo uma delas, acontece que, não saindo por sua via comum, acumula-se e se vê necessitada de sair por outro canal, donde o desafio da prática ser essa recanalização. O homem deve redirecionar sua atenção do sexo para outros objetos. E se cabe o sujo aconselhar o mal lavado, e o desonesto admoestar o mau pagador, dar-vos-ei uma pouca de conselhos segundo a experiência que tirei da minha incipiente prática, os quais podem vos ajudar na vossa, sobretudo se fordes mais fortes que eu. Estes conselhos servem tanto para os solteiros que querem se aprimorar na prática quanto para os casados, cuja situação ideal é ver todas as mulheres, afora as suas, como se fossem suas irmãs, e não solteiras a desposar ou casadas a depravar. Mas advirto que não vereis coisa nova nos seguintes conselhos, que poderão ser tidos muito bem por chover no molhado.


Acredito que o pressuposto da retenção seminal bem-sucedida seja este: um dia e uma mente bem ocupados. O dia se deve ocupar com atividades úteis e agradáveis, isto é, atividades que produzam receita, saúde e lazer, cada uma na sua devida proporção, porque não haveis de regalar mais que produzir. Deveis ter um propósito bastante estimado para construirdes vossa rotina em torno dele e assim terdes o senso de estar obrando em algo maior e significativo. No que respeita à mente, deve ela focar-se nesse estimadíssimo propósito e desviar-se dos contornos feminis. Isso não significa menosprezar as mulheres, mas guardar certo distanciamento interno entre si e sua beleza, não se deixando cair em uma ilusão e confundir atração física com a necessidade de possuir. Sentir-se atraído é uma coisa, sobre a qual quase não temos controle, mas perder-se no objeto e pôr ali o desejo é outra e se trata de um mau hábito que aprendemos com nossos pais e amigos. Eis uma prática que aconselho a todos os homens: não olhar para nenhuma mulher com lubricidade; apenas reconhecer a sua beleza e ver-se imune a ela. E não criar imaginações lascivas. O homem que procede assim é admirado e inspira respeito. A vantagem da retenção seminal é dispor de mais energia e fortalecer a masculinidade, por acúmulo da energia sexual masculina, e com isso tornar-se mais atraente e confiante. E é apenas isso que tenho a dizer sobre esse assunto.


Para concluir, devo lembrar-vos do nosso princípio e dessa forma impedir-vos de mal guiar vossos intentos, porquanto é preciso saber o que nos move e aonde queremos chegar. Já dei para apodar-me hedonista, uma vez que meu critério das decisões era o prazer. Contudo, não era o prazer de Freud e sim o de Epicuro. Este filósofo, embora dissesse que o sumo bem fosse o prazer, sabia que o modo correto de obtê-lo era por meio da virtude. “O prazer é o início e o fim de uma vida feliz.” Então a minha busca pelo maior deleite não era mal guiada e nem em essência hedonista. Enquanto critério do agir, esse deve de ser, com efeito, o único inteiramente sincero, quando bem compreendido. Desse modo, essas práticas e conselhos que aqui vos deixo não devem ser seguidos cegamente, inobstante o sofrimento que possam causar, mas como meios para se atingir uma vida boa, isenta de cansaços e fraquezas e onusta de vigor e sucesso. Portanto, suspendei as práticas que vos parecerem demasiado incômodas e impertinentes e adotai aos poucos aquelas que melhor servirem aos vossos propósitos.


[1] Platão, Timeu, p. 287, Edipro.

 

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