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Diálogo na academia

Wright Barker, "Circe", 1889.
Wright Barker, "Circe", 1889.

 

Em uma academia de musculação, enquanto revezavam o supino, três indivíduos jogavam conversa fora, falando de assuntos sem importância, quando um deles, queixando-se do aumento geral dos preços, começou a maldizer a inflação. Censurou o governo, dizendo que era seu dever conter semelhante fera ao invés de desimpedir seus avanços. O segundo concordou, lembrando que nunca estiveram tão caros o café e o azeite, e que seu churrasco de fim de semana pela primeira vez decaiu na qualidade da carne. Perguntaram enfim a Júlio, o terceiro daquela assembleia, qual era a sua opinião sobre o assunto. Júlio nunca havia se manifestado para além das banalidades do convívio; primava pela reserva e fugia a posicionar-se em temas políticos ou sensíveis. Tinham-no assim por medíocre, doce condição. Ele no entanto estudava, mais por amor do saber que não por vaidade. Fugiu às instâncias de seus colegas para falar; mas, vencido, abriu o mais insólito discurso, o qual suspendeu o revezamento e esfriou os corpos, e o qual desenrolou-se nos seguintes termos:


“Senhores, já que insistis”, disse, levantando-se do supino, “digo-vos o que sei, que é isto: inflação não é o aumento geral dos preços, mas a emissão criminosa de moeda. Impressão de dinheiro do nada, enchendo a economia de moedas falsas: isto é inflação. O aumento geral dos preços é uma consequência da desvalorização da moeda, que, havendo muita, pouco vale. Fazem-nos isto para nos roubarem sem nos tocar; é o furto mais sub-reptício que existe, e o mais portentoso. Credes ser coincidência que a criação do Banco Central americano tenha precedido de pouco tempo o início da Primeira Guerra Mundial? Subtraindo do povo o dinheiro, por impostos, e ainda o valor do dinheiro, por inflação, podiam os políticos esbanjar em guerras, ao custo de um apertar de botão. Chama-se, ouvi bem, efeito Cantillon a isto: que os que recebem primeiro o novo dinheiro ganham, e os que o recebem por último perdem. Foi depois da Revolução Keynesiana, a partir da década de 30, que alteraram o significado verdadeiro e original de inflação, transformando-o no que é hoje, aumento geral dos preços, e obscurecendo a causa do fenômeno. Mas não vos deixeis enganar: sabei que, quanto mais há de um bem, menos cada unidade desse bem vale: essa a lei da utilidade marginal decrescente, princípio explicativo suficiente da desvalorização do dinheiro. Assegurai o monopólio das leis, e tereis leis cada vez piores; assegurai o monopólio da moeda, e tereis o colapso social: o povo, querendo à pressa livrar-se da moeda, porque vale mais hoje do que valerá amanhã, gasta, e a moral decai na medida mesma em que decai o valor das coisas futuras. Por isso deve ser sempre livre a moeda, e eleita pelo mercado segundo suas qualidades naturais, como o foi o ouro, por sua escassez, e fungibilidade, e divisibilidade, e outras virtudes de moeda. Não choreis, pois, amigos, pelo aumento geral dos preços; antes, abominai o monopólio que o fabrica e derrubai-o com a força da violência.”


Terminado este discurso, os dois colegas de Júlio ficaram suspensos, e algo confusos. Nisto, por sorte viram passar de toalhinha no ombro um conhecido economista que também treinava ali, conhecido porque havia anos opinava no jornal da tarde, na televisão, e por isso reputado como homem culto. Saltaram a perguntar-lhe o parecer. Sem dar muita atenção e rejogando a toalhinha sobre o ombro enquanto se virava para sair, instruiu-os com a brevidade do oráculo:


“A inflação faz girar a economia, rapazes; estimula o gasto.”


Encantados com tão longo saber em tão curto falar, ficaram satisfeitos os dois marombeiros, e a confusão que Júlio lhes impingira se desfez. Tudo agora era claro, e a inflação se lhes afigurou, se assim mesmo um mal, um mal benigno. Munidos da sentença da autoridade, e mais convencidos pela força das instituições oficiais que por qualquer raciocínio, voltaram-se para Júlio e disseram:


“Vê aí, Júlio, o homem é economista!”

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