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Pablo Marçal: Um exemplo


Francisco de Goya, "Tu que no puedes", 1799.

Sabeis vós que me ledes que não tenho por costume elogiar particulares, nem particulares repreender, pois não me cabe a mim corrigir ninguém senão a mim mesmo, e nisto já tenho tido tão grandes lutas que, se nem a mim mesmo consigo corrigir em o querendo e pedindo a Deus, quanto mais os outros por recurso de soberba admoestação. Quanto ao elogio, não o faço mesmo por não haver quem o mereça. Pelo menos assim tem sido até ver o desempenho de um tal Marçal no espetáculo de comédia por nome Fritada, onde se deram tantos e tão memoráveis sucessos que não posso senão os narrar e encarecer, para que pelo exemplo possamos, os leitores e eu, arvorar-nos em mais nobres e bem acabados cidadãos.


Neste país estão em falta os bons exemplos, os modelos a imitar, pois parece ser um requisito da fama o ser inculto, frívolo e charlatão; materialista, autoidólatra e arrogante; dar primazia a haveres e aparências como fossem insígnias de valor; preferir o poder à modéstia e à discrição; amar o dito desabrido e polêmico em lugar da fala branda e ponderada; consagrar a mentira e a falsidade em lugar da retidão e singeleza; e colocar objetivos financeiros acima da decência e da vergonha. Mas passa Pablo Marçal longe e distante disso tudo, como ficou claro na Fritada e ficará ainda mais claro aqui; por modo que podemos dizer, finalmente, que achamos um exemplo vivo e magnífico, entre os homens deste país, a imitar e seguir.


Ao centro do palco, então, da última Fritada, sentou-se Pablo Marçal, esse afamado treinador comportamental e especialista em desenvolvimento humano, que recentemente ficou conhecido por causa das incríveis histórias que conta, nas quais se engrandece a si mesmo de tal maneira, e os próprios atributos realça de tal sorte, que ao público geral faz crer que ou é louco, ou mentiroso. Mas, se louco, é daqueles que nos levam em sua doce loucura; se mentiroso, nunca houve outro mais benfazejo. Porque, nos seus exageros, diz tantas verdades, e tão duras, que faz chacoalhar os espíritos do povo, que, deixando-lhe um pouco do seu dinheiro, muda enfim de vida.


Naquele dia, porém, da Fritada, devia Pablo Marçal estar às voltas com algum grande empecilho, só dele sabido, porque por vezes pareceu não gostar das pilhérias. Assisto a esse programa há muito tempo e nunca vi convidado tão desgostoso do que ouvia, e tão claramente demonstrando-o. Até porque nenhum outro convidado teve a coragem que Pablo Marçal teve de deixar claro o seu descontentamento e a sua desaprovação. Um homem forte, evidentemente, não faz as coisas quando os outros lhe pedem e solicitam, ainda que esteja em casa alheia, mas somente quando ele mesmo quer. E a sua simpatia – que digo? a sua atenção! – deve ser conquistada a alto preço. Foi assim que, quando chamado ao palco, Pablo não atendeu, e, embora possua alguns helicópteros, chegou atrasado. Não tomeis os leitores por falta de cortesia aquilo que muito bem pode ser siso e benevolência, pois até nas suas indelicadezas tem Pablo lições a ensinar. Então vede bem se um tal ato de desprezo e dominância não foi na verdade um ato de sabedoria.


Quando enfim entrou, sentou-se na cadeira do fritado e começou a remunerar os comediantes pelas piadas, conforme eram boas ou ruins. Às melhores, dava notas de cinquenta e cem reais, ou remunerava em dólar, e às ruins dava uma notinha de dois, ou nada. Já que era ele o protagonista da noite, nada mais natural que caber-lhe a ele somente decidir que piadas eram boas ou ruins e atribuir-lhes o valor. Não só isso é justo, como possui um traço de genialidade, visto como enriqueceu – literalmente ­– o show e fez piada das próprias piadas.


Observando bem, no entanto, a sua feição, flor que é da caridade e da brandura, posso dizer que Pablo teve sempre um de dois comportamentos durante todo o espetáculo: ou riu por caridade ou quedou-se por cordura. Porque, quando ria, era tão claro o seu esforço, que, assim como é Pablo, fosse antes cidadão comum, diria estar nervoso ou possuído. Como é Pablo, porém, era isto generosidade. Pablo jamais deixaria alguém sem jeito, mesmo fazendo piada dele, a não ser que fosse piada tão vil que merecesse o seu esgar e silêncio – e nem um real. Olhai bem que, quando Pablo não ria ou com o olhar fulminava o comediante, já não era porque era ruim a pilhéria, mas por ferir a honra e o decoro, coisas a Marçal caras e inegociáveis.


Com grande continência assistiu Marçal ao triste espetáculo daquelas piadas de que era objeto, sem dar quase um pio, mas respeitando o momento da mediocridade e da irrelevância – esperando, na verdade, o momento em que, com uma plateia onusta de inimigos, pudesse sobre todos lançar sua luz. E assim fez, pois, quando lhe foi dado falar, em vez de dar continuidade ao espetáculo tal como foi concebido para desenvolver-se, transformou-o em um estrado da sua inteligência, para que todos dela pudessem beber, sem cobrar um real a mais por isso. E falou e fritou o cérebro de todos.


Houve nesse momento alguns indivíduos que agiram de maneira tão estúpida, mesmo diante de Pablo, que vale a pena mencioná-los: um levantou a mão para questionar Pablo sobre se estava “bêbado ou drogado” quando criticou Ayrton Senna. Pablo humildemente respondeu que de fato errou, e demonstrou arrependimento. Um outro, tão imensamente imbecil, dignou-se levantar a mão para pedir a Pablo que não aparecesse mais em sua timeline do Instagram, porque ele não o queria. Pablo, sem ofender-se, respondeu que, se isso o estava incomodando, era talvez porque estivesse utilizando demais o aplicativo. Melhor resposta não poderia haver: nela já se incluem o diagnóstico e a terapêutica. Quão mesquinho não deve ser um homem, e quão pobre a sua vida, para achar tempo de odiar um Pablo Marçal?


Já Marçal leva uma vida tão rica que não encontra ele tempo de odiar ninguém, nem sequer pensar em ninguém senão em si mesmo, de tal maneira que, além das lições de sabedoria, deu-nos uma aula de vendas do início do fim: não perdeu Pablo oportunidade alguma de realçar seus feitos, mencionar seus livros e encarecer seus cursos. Pelo que nos abriu a porta da prosperidade e nos convidou a entrar e cear com ele, e ele conosco.


Antes do encerramento, Pablo ainda delatou os bloqueios emocionais de cada um dos comediantes, para não perder o costume, porque por mui boa coisa tem ele o dizer em público aquilo de que cada um guarda tão fechado segredo que oculta até de si próprio.


Bem umas centenas de pessoas que chegaram àquele teatro odiando-o saíram de lá admirando-o. Afinal, como não seria de admirar um homem que escreve mais livros em um ano do que qualquer um é capaz de ler em dez? Um grande gestor, vendedor e negociante? Um rápido e implacável orador? Um corajoso, um viril? Um plebeu enfim que a duras penas conquistou o estatuto de burguês e pretende ainda conquistar o de deus? Nunca será caro demais um prato de comida na presença de um tal sujeito; digo ainda que mais vale estar com fome em sua presença que alimentado longe dele.

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