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Os Diálogos de Platão da Edipro

 


Almeida Júnior, "Leitura", 1892.

Dado que aprender filosofia passa por ler Platão, e que estão mui dispendiosas as traduções de Carlos Alberto Nunes pela editora da UFPA, pus-me a comprar e ler as traduções de Edson Bini pela Edipro, crendo que, embora pudessem não ser as melhores, nem por isso viriam más.


E de modo algum eu diria que são más as traduções. Sucede que vêm elas tão onustas de lapsos no português, quando não erros francos, que não raro me dói lê-las, seja por ver maltratada obra de tão grande importância, seja por saber que há jovens que, em as lendo, acreditam estar libando o mais refinado português, quando na verdade bebem de fonte impura.


Desde que li o primeiro volume, fiquei tão admirado com o modo e a quantidade dos erros, que decidi enviar à editora um e-mail admoestando-a, o que protelei até o quinto volume, quando o seguinte trecho me sobressaltou: “...incitar um conflito entre eu e Agaton...” (página 122). Ora, o correto seria “entre mim e Agaton”. Um erro desse jaez se espera de falantes ordinários da língua, não de profissionais, e evidencia que o mau português constante em toda a coleção não é acidental, mas fruto de incúria e ignorância. Tratando-se de obra filosófica e de autor axial, semelhante descuido faz-se imperdoável.


Há outros e mui variados erros, do que tiro que ou o tradutor é descuidoso ou o revisor é mal pago. No fundo, porém, acredito que nem sendo cuidoso aquele e bem pago este teriam feito trabalho muito melhor. Porque a incúria quanto à língua, a falta de esmero com o idioma, e a ignorância mesmo de suas regras é resultado já da decadência moral e intelectual que temos visto e que Olavo de Carvalho tem desde há muito denunciado. À decadência intelectual ajunto a moral porque não é senão uma desvergonha escrever sem o devido apuro com a língua, fazendo pouco caso dos dicionários e gramáticas e como que saindo à rua mal vestido.


Um erro que particularmente me incomoda é usar a conjunção concessiva “posto que”, que significa “embora”, “ainda que”, “se bem que”, como conjunção explicativa (“visto que”, “dado que”), um uso que não se vê nas obras antigas nem possui o abono dos gramáticos modernos, mas que tem se tornado comum em razão da ignorância geral.


Não pude, então, deixar de enviar à editora o meu parecer, esperando ao menos que o lessem, porque que se corrigissem seria demais. Nem o fiz eu pensando em mim, porque o idioma o sei eu bastante bem e sei onde sanar minhas dúvidas quando as tenho. Fi-lo pensando no leitor médio, que, pegando obra erudita, ilude-se pensando estar absorvendo a forma erudita do idioma.


Eis o que escrevi e o que responderam:

 


 

Será?

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