Carta sobre os princípios de George Berkeley
- João Theodoro

- 24 de jul.
- 6 min de leitura

Tu me disseste, Jobo, que, indo apascentares-te num sebo, viste a obrinha daquele bispo irlandês de que te eu tinha falado, e que te pareceu tão curta e agradável a leitura, pela brevidade clássica do autor e estilo de boa criação, que, mesmo tendo grande preconceito contra ele, te resolveste a lê-lo. E foste em seguida tão duro com o bispo, que, se não pecaste por ofensa a prelado, erraste por juízo apressado. Escreveste-me assim:
Nunca vi tão justificado o preceito de Arthur Schopenhauer de esmerar-se o sujeito mais na arte de não ler que na de ler, visto como a vida é curta demais para darmo-nos a disparates tais como a inexistência da matéria, a impropriedade de ideias abstratas e a redução de toda a realidade à mente. Bem sabes, Merrão, que sou um realista, e não só a existência de ideias abstratas me parece autoevidente, como esta matéria rude que toco e me forma. Citaste-me esse autor como precursor de uma grande e contemporânea ideia, que há de emendar muita coisa na filosofia. Pois cheguei já ao epílogo e ainda a não vi.
Menos me impressiona repelires tais ideias que o modo como as repeles, porque igualmente sabes bem que temos poucas divergências, Jobo, e uma delas pode ser esta mesma sobre a natureza da realidade, onde creio que ainda vais em estado de ingenuidade. Mas, ainda concordando mormente contigo, julgo insapiente reduzir um autor a palrador de disparates, quando tantos anos passou depurando o pensamento até chegar ao estado em que o apresenta, e temos diante de nós não só um mel, mas um mel filtrado e refiltrado por um engenho alto. Não enxergar-lhe portanto positividades é antes falha do teu juízo, que não é curto, que desmerecimento do autor.
Das três ideias que apontaste, digo que uma é ruim, outra bem certa e a terceira quase certa. A que considero ruim é a tese da inexistência das ideias abstratas. Quando primeiro o li, confesso que fiquei confuso, porque não só as ideias abstratas me parecem evidentemente existir, como dependo delas para me comunicar e compor, no entendimento, o tecido do mundo. Viste que a prova que o bispo apresentou dessa tese é o fato de que não podemos imaginar uma ideia abstrata, senão que somente ideias particulares. Ele dá o exemplo de um triângulo: não consigo imaginar um triângulo platônico, mas somente um triângulo com cor, forma e tamanho determinados. Assim também não consigo imaginar a ideia pura de homem, mas tão somente um homem certo, com sua altura, cor e caracteres particulares. Nisso creio que vai confundindo nosso autor duas atividades do espírito: uma a de imaginar, outra a de abstrair. Porque ao imaginar compomos um objeto, e ao abstrair decompomo-lo, assim que me parecem ser atividades não só distintas como opostas. Pela atividade da imaginação criamos representações, e pela abstração, conceitos. Como Berkeley era um empirista radical, não via na realidade senão intuições sensíveis, de maneira que toda ideia não era para ele senão intuição ou imagem. Entendidas dessa forma, as ideias abstratas realmente não existem, tanto quanto não existem conceitos concretos. Mas a atividade do intelecto nos mostra que não só existem representações ou intuições sensíveis, como abstrações dessas intuições para formar conceitos, que expressam, no linguajar de alguns, essências. (Sei que aprecias este linguajar.) Portanto, creio que ideias abstratas existem, mas não no sentido em que as parece tomar o bispo.
Quanto à segunda ideia, que me parece bem certa, e a ti bem errada, é a da inexistência da matéria. Tu dizes que o testemunho dos teus sentidos dá prova bastante para a realidade dessa coisa. Mas o próprio Berkeley rechaça tal testemunho: “Não vejo como pode alegar-se o depoimento dos sentidos como prova da existência de algo que não é percebido pelos sentidos”. Vemo-nos parece diante de uma aporia. Tanto quanto o provam os teus sentidos, os de Berkeley o refutam. Mas o fato é que os teus sentidos não observam a matéria em si, senão que tão somente objetos materiais. Esta dificuldade me lembra aquela teoria segundo a qual o espaço faz curva, quando em verdade curvam-se os objetos no espaço. Dizer que o espaço se curva é tão impróprio quanto dizer que as cores se curvam. Então, podemos dizer que os teus sentidos não dão testemunho da matéria, como não o dão do espaço, visto como essas realidades não são objetais, senão que formais. Nesse sentido creio que nos pode valer a linguagem do filósofo de Königsberg, que escreveu cinquenta anos após o bispo: a matéria, direi, é a forma da sensibilidade. A tua sensibilidade percebe as coisas como materiais, mas não percebe a matéria em si. Daí que dizer que existe uma substância material é impróprio, e mais ainda que os sentidos a captam. Não só os sentidos não captam nenhuma substância material, como a repugna o intelecto, visto como seria impossível, como argumenta o bispo, haver qualquer comunicação entre a mente e a matéria se ambas fossem duas distintas substâncias. Uma interação entre ambas pressuporia uma terceira que fizesse de alcoviteira. Entretanto, se há uma terceira que medeia tão casto conúbio, esta sim é que recebe o nome substância com toda a legitimidade, tanto que substância no sentido filosófico só pode haver uma.
E a partir daqui me distancio novamente do bispo. Porque afirma que essa substância seria a mente, e assim não o entendo eu. Digo no entanto que vai quase certo nisso. Porquanto quero crer que reduziu tudo à mente por lhe ter faltado – ignorância da época – o termo consciência, no sentido não de psique, mas de consciência pura, esta sim aquilo a que tudo se resume. Mas nota, Jobo, que do monismo da mente para o monismo da consciência vai distância tão pouca, e são duas posições tão assemelhadas, que nosso autor chegou muito perto da verdade, e deu-nos um prenúncio, como te falei, desta grande descoberta da filosofia, nova sim para nós ocidentais, antiga entanto para os do oriente, e segundo a qual tudo é consciência. Sabiam-no já os iogues desde milênios, e os escritos védicos já o diziam em linguagem clara e inequívoca: para além da mente e da matéria, só a consciência há. Para dizer de outro modo, se a mente e a matéria são a forma do Múltiplo, a consciência é a natureza do Um. A consciência é aquilo que no devir permanece, como o arco-íris na queda da cachoeira. As coisas da mente não se reduzem às da matéria, nem vice-versa, mas ambas surgem e ressurgem na consciência, de maneira que esta, sendo o meio comum, é a massa que as liga e forma. A redução de tudo à mente formaria uma filosofia caolha, deficiente, porque as coisas da matéria não se explicam em termos mentais, como o fenômeno da moral não se pode explicar causalmente, nem o fenômeno da chuva mentalmente. Dir-se-ia que a chuva se origina de acontecimentos externos, causalmente ligados, e a moral de realidades internas, como o valor e o significado. Mas tudo isso se dá na consciência, a qual, não sendo concreta nem abstrata, abarca o concreto e o abstrato. E não sendo fenômeno (pois não existe para o sujeito, senão que é o sujeito!), não possui forma ou limites, por onde se conclui que transcende o espaço e o tempo, nem possui causa, nem qualidade nem número, e todas as coisas nela vivem e subsistem. É Deus, em resumo. Aliás, teria Berkeley talvez se regalado nesta conclusão, visto como um dos objetivos da sua filosofia era destruir o ceticismo e humilhar o materialismo.
Se te conheço, Jobo, me hás de replicar: “Que a realidade se reduza à consciência, vá lá que é discutível; mas a isso reduzir Deus, não, é heresia”. Se semelhante tese é heresia, deixo-o ao labor dos teólogos. Quanto a mim, parece-me a tese mais pia que já se concebeu. E não é de admirar que Berkeley tenha quase aí chegado, para o qual era sempre verdade que “Nele vivemos, e nos movemos, e somos”. De maneira que me parece mais herética ainda uma filosofia que separe o homem de Deus.
Por fim, embora tu não a tenhas mencionado, confesso que achei de uma sutileza extraordinária a tese segundo a qual aquilo que chamamos efeito é na verdade um signo. Para Berkeley, se te não recordas, a percepção do calor não é causada pelo fogo, mas é um signo desta outra ideia. Não concordo com a supressão da causalidade aristotélica, mas eis aí um entendimento sutil que vai dar na natureza simbólica do mundo.
Sobre essa questão das positividades, é bem certo que nenhum autor é tão burro que se não tire nada de bom dele, quanto é certo também que o nosso maior autor foi o que mais soube emendar as contradições e celebrar as positividades, atinando sempre a afirmação na negação e a concretude no mais alto pensamento.



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