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A Pílula de Pompeu - Parte III de III


William-Adolphe Bouguereau, "A Virgem, Jesus e São João Batista", 1875.

“Digo-te, rapaz, fora eu menos forte de estômago, vomitava junto, tão asquerosa foi a cena”, disse Arnulfo Pompeu a Arthur Piano, já entrados e sentados no café. Arthur tomava uma água com gás.


“Foi a tua pílula, Pompeu!”, disse Arthur.


“Foi sim teu desespero”, redarguiu Pompeu. “És uma criança espiritual.”


“Criança ou varão crescido, verdade é que preciso da tua pílula.”


“Aquela pílula era um comprimido de arginina, nada de mais.”


“E que encantamento botaste nele, que tudo que me falaste que ia acontecer, aconteceu?”, indagou Arthur. “A confiança, o denodo, a inteligência, a atividade, tudo senti no mais elevado grau quando engoli o comprimido preto.”


“Tudo coisas da tua cabeça, Arthur”, disse Pompeu. “Ficaste tão envolvido na ideia e tão embebido na fantasia, que acreditaste tudo e, crendo, obraste conforme.”


“Não, Pompeu, juro que havia algo naquela pílula. Mais fácil acreditar que veio dos porões de um hábil necromante que da fria e esterilizada banqueta de um laboratório. Mesmo fosse verdade o que dizes, e seja antes embuste a pílula do que verdadeira panaceia, por que demover-me da fantasia em vez de me dizer logo onde fica o porão desse nigromante, ou selo desse laboratório, ou qualquer que seja a fonte enfim de tão estupendo poder?”


“Porque prefiro a verdade à ilusão, e digo-te que a fonte de tão estupendo poder é tua própria consciência. Sendo tão idealista como és, facilmente acreditas em tudo e mergulhas nas mais disparatadas ideias, para logo depois bateres nas pedras dum tormento rude e das ruínas duma casa assistires ao desmoronamento de outra.”


“Não posso, Pompeu, não posso estar sem o poder da tua pílula! Ontem mesmo saí do emprego (depois de transar com a estagiária no meu mesmo escritório!) e hoje assinei contratações e decidi rumos pelos quais minha nova empresa se conduzirá. Mas sem o poder da pílula eu nada farei, e juro que me atiro de um prédio!”


“Se estás disposto a morrer”, disse Pompeu, “por que não morres para esta vida miserável e renasces para aquela de abundância que tu mesmo, em apenas crendo, criaste?”


“Isto são papos de biltres charlatães, Pompeu! Sabes que em verdade não é assim o mundo, e do dizer ao fazer vai longa distância.”


“O mundo também é, em alguma medida, como queres que seja”, disse Pompeu, e colocou sobre a mesa uma bolsa transparente cheia de comprimidos pretos. “Ei-los que aqui estão, tão mágicos e encantados como queres.” Um brilho infinito cantou no olhar de Arthur. “Dou-tos de presente, já que crês precisares deles.”


Arthur abriu o zip lock e engoliu uma pílula. Em quinze minutos seu ar mudou, serenou-se o semblante, agravou-se a voz.


“Arnulfo”, disse, “devo-te não só um saco de comprimidos, mas a própria vida. Usá-los-ei para reconstruir a minha, e o depois entrego a Deus. Talvez, quando acabarem, tenha já me acostumado tanto com este novo estado de ser que não precise mais deles. De ontem para hoje criei uma empresa. Se isto fiz em um dia, que não hei de fazer em trinta? Aliás, tanto a ti devo essa empresa, que a batizei de Pompeu Marketing Ltda., como um pai batiza o filho com o nome mais ilustre. Quero que apareças na inauguração, se puderes, daqui um mês.”


“Seja feita a tua vontade”, disse Pompeu.

 

*


Trabalhou Arthur Piano aquele mês com tamanho fervor, e com tal desenvoltura administrou a gente e os negócios, que no dia mesmo que ajustara com Pompeu estava ele inaugurando a sua nova agência, em um evento de gala a que assistiu notável número de pessoas, dentre as quais familiares, amigos e desafetos. Chamara aqueles mesmos indivíduos que em sua antiga empresa riam de suas ideias e duvidavam de seu sucesso. E havia ainda na reunião um político, com quem Arthur se conchavara, prometendo cuidar de sua próxima campanha gratuitamente em troca de favores administrativos.


Quando, porém, subiu Arthur no palco para discursar, e com esse discurso dar à luz oficialmente a sua empresa com toda a pompa e glória, sentiu que ia passando o efeito da pílula, e sem preocupar-se nem um pouco com isso levou a mão ao bolso para servir-se de outra, mas nenhuma outra achou, pois que seu saquinho de comprimidos ficara em casa. Desesperou-se, recordando que, na pressa e na euforia em que se encontrava, esqueceu suas pílulas no quarto, sobre a cama, não as tendo, como tencionava, colocado no paletó. Vestiu-o e olhou-se com orgulho no espelho, e também Priscila o admirou, e o chamou para irem logo, antes que se atrasassem, e assim ficaram esquecidas sobre cama as obreiras da sua felicidade. Com tão imenso lamento recordou-se disso, que quis rasgar as vestes e bater a cabeça na parede, e, levando uma garrafa de uísque, fugir nu da festa. Mas, embora tendo isso desejado, continuou andando em direção ao púlpito, pensando no que ia fazer. Lá pôs-se no púlpito diante da audiência, que instantaneamente silenciou. Alguns queriam vê-lo cair, outros, que alçasse ainda maior voo, mas ninguém olhava para Arthur Piano com indiferença, pressão essa mesmo que quase o fez desmaiar. Seu primeiro impulso foi fugir, em seguida ao que pensou simplesmente em pedir desculpas e dizer que não se sentia bem, e pareceu-lhe bom esse alvitre, e quando o ia pôr por obra, e pigarreou, todo molhado de suor, do fundo do salão brotou Arnulfo Pompeu, notabilíssimo por seu garbo e porte, e briosíssimo, e tão luminoso que acendeu uma luz viva nos olhos de Arthur, que se lembrou das seguintes palavras: “Se estás disposto a morrer...”. E tendo ecoado esse discurso em sua mente, pensou Arthur: “Se estou disposto a morrer, e a me atirar de cima de um prédio, vou então me atirar de cima do orgulho e morrer de uma vez!”. E, pensando isso, obliterou Arthur todo o orgulho que havia dentro de si e proferiu o mais elegante, gracioso e bem concertado discurso que alguém jamais viu; que até o político, treinado nessa arte, o invejou. E, quando finalizou, todos os aplaudiram, e entre todos procurou sobretudo ele o aplauso de Pompeu, que no entanto não encontrou. Pompeu saíra furtivamente antes de findar o discurso. Isso magoou Arthur, mas estava ele tão contente com o sucesso e tão bajulado por todos, que lhe deu pouca importância. Ainda assim foi para casa pensando no aplauso que não recebeu.

 

*


“Sr. Arthur, um homem deixou esta carta para o senhor. Disse chamar-se Arnulfo”, anunciou a secretária de Arthur, dona Sara, quando ele chegou no dia seguinte a seu novo escritório.


Agitou-se Arthur, imaginando que poderia ser o devido pedido de desculpas de um amigo que faltou em um momento tão importante:


“Meu caríssimo amigo”, leu Arthur em sua sala, “fiquei tão feliz com o teu discurso, o qual proferiste com a desenvoltura talvez de um mui bem instruído grego ou do melhor dos romanos, que fizeste nascer dentro de mim a maior alegria que já experimentei, e tão forte foi a alacridade, que não pude conter meus pés e saí imperador caminhando pela rua, pensando em quanto poder não há em um jovem idealista e ambicioso com a devida instrução e o devido encorajamento. Alto voo está reservado para ti, e se não te dei meus aplausos e parabéns ontem, dou-tos hoje e ainda os darei sempre que te vir, pois os mereces infinitos e multiplicados. O orgulho do qual caíste é a humildade na qual cresceste, e espero que sempre seja esse o teu caminho: estados cada vez mais elevados de pompa, luxo e riqueza e cabedais cada vez maiores de virtude, honra e dignidade. O próximo café será nesse teu escritório novo. Já adquiriste uma máquina de expresso para visitas ilustres?”


“P.s.: tornaste-te o feiticeiro.”

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